Tomoko Kawase e os opostos não tão opostos assim

Em tempos de polarizações políticas, sociais e em várias outras esferas, tem sido relativamente comum ver pessoas tentando encaixar o mundo em uma lógica binária. 0 ou 1. Preto ou branco. Quente ou frio. Esquerda ou direita. Escolha seu lado e ele vai definir tudo que você é – e o que você não é. Mas será mesmo?

Opostos… ou complementares?

Se você me perguntar por que há quem queira reduzir tudo a extremos e oposições, eu sinceramente não saberei responder. Se a pergunta for o que eu acho que causa esse tipo de comportamento, meu palpite seria que isso torna mais simples formar sua visão de mundo e assim fazer suas escolhas. Afinal, se tudo pode ser reduzido à bem e mal, certo e errado; fica fácil decidir, não é mesmo?

A redução em si talvez não seja ruim, não sei dizer. Mas há dois problemas que vejo nela: o primeiro parece vir quando esse mesmo reducionismo é aplicado com uma mentalidade de confronto, onde não basta você escolher seu lado, é preciso atacar tudo que venha do outro lado. Temos visto muito isso na política (lembrando que política não se resume aos políticos em si, mas também à formação de grupos sociais e à forma como eles interagem uns com os outros), mas esse ponto é bastante polêmico e complexo, então não pretendo discutir aqui.

O segundo problema, talvez bem menos sério, porém mais próximo do que pretendo abordar aqui, é a limitação que esse tipo de visão coloca, onde tudo e todos estão dentro de caixinhas cujos conteúdos não se misturam. Ou você é bom, ou é mau; ou é alguém que só valoriza o corpo, ou só valoriza a mente; ou é uma pessoa meiga, ou é abusada (mas não as duas coisas ao mesmo tempo, OK, Anitta?). É uma lógica comum em obras como filmes adolescentes (onde os atletas descolados e pouco inteligentes batem de frente com os nerds antissociais, ou as líderes de torcida lindas e fúteis trocam alfinetadas com as garotas tímidas e desleixadas), telenovelas (que até hoje giram em torno dos conflitos entre heróis sempre bondosos e vilões sempre malignos), e por aí vai.

A meu ver, essa limitação é um problema porque ela rejeita a possibilidade de um meio termo, ou de uma terceira opção (e até de uma quarta, quinta, sexta…). A verdade é que não é assim que o mundo funciona, como bem mostra o símbolo conceito milenar de yin e yang: um círculo dividido por uma linha sinuosa em duas metades iguais, uma preta e uma branca. Extremos opostos, certo? Sim – mas também complementares: você precisa de uma metade para que a outra forme um círculo completo, assim como o dia precisa da noite. Ou seja, opostos podem coexistir em harmonia. Devem, inclusive. Entretanto há outro aspecto interessante: já reparou que, em cada metade do círculo, há um círculo menor com a cor oposta à da metade em que ele se encontra? Pois é, todo esse falatório foi só para agora chegarmos à convidada do dia.

O que Tomoko Kawase tem a ver com extremos opostos ou com o yin e yang?

Na verdade, não muita coisa. Tomoko não é nenhuma filósofa milenar; ela é uma cantora japonesa (que na blogosfera seria chamada de “j-véia”) que já passou dos 40, mas parece que acabou de sair da adolescência (ensina seu segredo, Tommy!), e que não é muito conhecida por essas bandas. Inclusive, acho muito difícil que alguém aqui conheça Tomoko Kawase. Mais provável (mas não muito, só um pouquinho mais) é que um ou outro leitor aqui já tenha ouvido falar de Tommy february6 ou Tommy heavenly6, seus alter egos. Com eles, Kawase pôde explorar duas sonoridades bastante diferentes. Tommy february6 tem seu repertório com músicas pop dançantes e videoclipes fofinhos…

…enquanto Tommy heavenly6 canta um rock bastante carregado, agressivo e por vezes melancólico:

Então, temos aqui extremos opostos, certo? A princesinha pop de um lado, a roqueira rebelde do outro. É aí que retomamos a questão dos círculos menores no símbolo do yin e yang. A explicação para eles é bem mais complexa do que vou colocar aqui, e peço perdão pela superficialidade (não sou conhecedor do taoísmo), mas falando de um aspecto puramente visual, basicamente temos um círculo preto na metade branca e um círculo branco na metade preta. Perceberam? A metade branca não é inteiramente branca, e a metade preta não é inteiramente preta. Em outras palavras, uma tem um ponto (ou círculo, no caso) em comum com a outra.

Assim como as metades do símbolo trazem em si essa contradição, as pessoas que frequentemente tentamos colocar em lados opostos não são realmente extremos opostos; e os alter egos de Kawase ilustram bem isso. Tommy february6 parece ser só mais uma princesinha pop, mas reparem nas expressões de tédio dela (que ela faz em todos seus vídeos), no comportamento que parece se rebelar contra toda a doçura e felicidade ao seu redor – e isso porque o videoclipe mostrado aqui não é um dos que traz ela pegando um frasco de vodca e enchendo a cara (sim, ela faz isso; e sim, é maravilhoso). Da mesma forma, Tommy heavenly6 parece uma garota roqueira furiosa em um mundo assustador, no entanto ela aparece usando um vestido de conto de fadas, seu vídeo traz nuvens coloridas com bandejas de doces e seus palhaços “assustadores” brincam e se provocam de forma divertida.

Tommy february6 e Tommy heavenly6 não são opostas: são complementares (Kawase já chegou a lançar um álbum duplo onde cada metade pertence a um alter ego), permitindo que a artista por trás dos codinomes possa explorar sua criatividade sem se ver presa a um rótulo. Mesmo com as diferenças entre os alter egos, ambos já apareceram juntos em “fotos” e february6 chegou a participar de um videoclipe de heavenly6 e gravou uma música para um dos álbuns dela, mostrando que sim, os diferentes podem conviver uns com os outros.

Portanto, se duas garotas que sequer poderiam existir ao mesmo tempo (por motivos de serem personagens interpretadas pela mesma pessoa) podem respeitar as diferenças, por que nós não podemos?

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Por Fernando Saker, colaborador do Whatever Music Basement.

8 comentários em “Tomoko Kawase e os opostos não tão opostos assim

  1. Existem algumas concepções sobre identidade que rondam bastante minha cabeça, principalmente neste ano… Esta necessidade de ser autêntico, principalmente no meio artístico e cultural (que é meu objetivo ingressar), é uma via de mão dupla muito maluca, porque entra exatamente no que você escreveu sobre a polarização. Temos de ser autênticos mas não podemos ser contraditórios e isto é um pouco… assustador…

    Este conceito de múltiplas personas eu acredito que vi em Did It Again, da Kylie Minogue, pela primeira vez no cenário pop (claro que tem todo o rolê Hannah Montanna x Miley Cyrus, mas dava pra ver que a Hannah não era muito diferente da Miley em si) e isso trouxe uma certa mística pra minha mente. Afinal, as artistas que exploram este conceito tem um senso de identidade bem definido e por isso conseguem “dividir” sua persona pública em setores, ou isto é justamente um recurso pra se entender melhor e elas estão tão perdidas na jornada do autoconhecimento como nós?

    Eu já tentei dar uma olhada dentro de mim mesmo e perceber quais seriam estas minhas personas, até teve uma época que comecei a montar playlists baseando-se nestes gostos musicais por vezes contrastantes (como baladinhas filosóficas de cafeteria e hinos como BBANG BBANG) e, acho que depois de ler este texto, vou fazer de novo… Dá pra ver em ambos os vídeos que existem certas características de unidade nas duas personas da Tommy que dialogam entre si e talvez isto tenha surgido de uma forma natural… E quando as coisas surgem de forma natural é que conseguimos vivê-las ao invés de só tentar enxergá-las…

    (Ok, eu dei uma boa brisada nisso tudo kkk Muito obrigado pelo texto, foi INCRÍVEL, como sempre xD – você e a Carla formam uma dupla e tanto <3)

    1. Excelente reflexão! E bem legal esse vídeo da Kylie com as múltiplas personas dela disputando a dominância.

      Existem algumas falas bastante usadas que me incomodam (como quando “artista” é usado como sinônimo de “celebridade”, sendo que temos figuras como o Roberto Justus que são celebridades e não são artistas, ou aquela pintora que vende quadros na feirinha da praça no fim de semana, que é artista e não é celebridade), e essa questão de “extremos opostos” é uma delas. Essa expressão costuma ser banalizada sempre que alguém quer definir que duas coisas ou pessoas são muito diferentes, ignorando que se você achar uma única semelhança entre elas, já se torna incorreto defini-las como “extremos opostos”. Lembro, por exemplo, que várias resenhas do mangá NANA (por sinal, ainda torço pra autora um dia lembrar que ainda está devendo o final dele) colocavam as duas protagonistas como completamente diferentes, e já nos primeiros volumes ficava claro que elas tinham MUITA coisa em comum…

      E exatamente como você bem colocou, as pessoas são figuras muito mais complexas do que esse tipo de pensamento compreende, cada uma cheia de contradições, transformações e facetas que só mostramos em determinadas situações.

      (no mais, muito obrigado pelo elogio, e não esquenta; cada texto que eu faço aqui é sempre brisado, então nada mais justo que os comentários também sejam, com todo mundo brisando junto)

      1. Eu tô pra ler Nana há um tempo já (apesar de ficar meio assim por não ter um final kkk), mas é interessante você mencionar este mangá neste contexto, porque, realmente, isto é extremamente narrativo (lado escritor falando kkkk) e fica perfeito pra analisar qualquer história sobre grupos

    2. AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH estou em surto!!!!! Amo demais a Tommy, conhecida carinhosamente por nós fãs como a “Avril Lavigne” japonesa ♥️ a dualidade dela é muito Icônica e é muito bom ver um blog como esse, que não é restrito ao mundinho obscuro do jpop, falando sobre de forma tão comopleta, amo vocês!!!!!

      Isso de lados opostos se completarem, e ser só dois lados de uma mesma moeda é muito válido e a discografia dela, e levar para uma reflexão mais abrangente é uma coisa que eu não pensava sobre, mas faz muito sentido!

      1. Tommy é maravilhosa mesmo! Mas eu não diria que falamos dela de forma muito completa; eu bem que gostaria, mas infelizmente conheço relativamente pouco das músicas dela, apenas uns três singles da heavenly6 e quatro da february6… particularmente, meu favorito é Lonely In Gorgeous, com o videoclipe alternando a homenagem/paródia de Sabotage dos Beastie Boys com as cenas dela no cenário cor-de-rosa caindo de bêbada e errando o playback da própria música.

        Sobre o apelido de Avril japonesa… isso é pelo estilo musical da heavenly6 ou pelo fato de tanto a Tomoko como a Avril continuarem décadas depois parecendo ter a mesma idade que tinham quando começaram? É incrível como elas parecem não envelhecer fisicamente…

    3. Nossa sim, agora que você falou fiquei passando na minha mente vários artistas e seus alter egos, a Lady Gaga com o Jo Calderone, a Mariah com a Mime….e seus significados, tem vários artistas que usam esse artifício quase como uma válvula de escape mesmo.

      1. Sim, inclusive a própria Lady Gaga já era em si uma persona que a Stefani (acho que é assim que escreve o nome verdadeiro dela) criou pra poder dar vida ao seu lado mais “fora da casinha”. Idem no caso da Lana Del Rey, que era como se fosse uma versão cínica e autodestrutiva da Elizabeth.

        Embora nos dois casos em questão, curiosamente os alter egos acabaram se misturando às identidades principais (ou as identidades principais simplesmente descartaram os alter egos mas mantiveram os nomes deles). É algo a se pensar.

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