Roman, Mashrou’ Leila e a legitimada cobrança

Olá. Sou eu, Carla. A nômade, a verdadeira desafiadora do desconhecido. Não sei ao certo como vim parar aqui, ou mesmo a localização exata. Penando melhor após uma breve pausa, lembro-me de Navios mercantes. Aqui faz muito calor e não vejo árvores para me abrigar neste mar deserto, de areia fina e pedregulhos hostis. Então caminhei. Caminhei até chegar numa espécie de construção abandonada. Lá encontrei pessoas, pessoas diferentes com trajes diferentes falando numa língua que eu não compreendia. Todas mulheres. Havia uma única que conseguia me entender, perguntou gentilmente o que eu fazia ali, se estava perdida. Como minha mente ainda estava confusa, apenas mencionei um Navio mercante. A mulher sorriu e disse que certamente foram os romanos que haviam me trazido até ali.

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Orishas: de raízes ao valor da música inestimável

O que faz uma música ser música? Saber tocar, saber escrever, ter alma, tocar o coração? E se, neste caso, tivermos tudo isso em algo chamado raízes? Poder contar a história de sua terra natal carregando uma bagagem imensa de cultura e musicalidade, com orgulho e de cabeça erguida. Orishas é tudo isso. Um grupo de Hip Hop cubano de Havana, Cuba, fundado em 1999. Pioneiro no gênero em seu país, Orishas também carrega em seu nome a referência direta (Orixás) ao conjunto de divindades cultuadas nas religiões de base africana nas Américas, como a santería em Cuba e o candomblé no Brasil, decorrentes da realocação de escravos iorubás.

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Pixy e crítica à crítica

Sabe o que eu detesto atualmente? Eurocentrismo. Sim, aquela noção arcaica de que a música de verdade consiste apenas nas obras de grandes compositores europeus. Aquela pompa de música clássica e orquestras executando as peças mais complexas que se possa imaginar. Obviamente muitos já questionaram a completa ausência dos outros continentes quando se estuda música erudita, engraçado, não é? Por algum motivo escuso (eugenia) e muitos saqueamentos ao longo de umas centenas de anos, o que era nosso deixou de ser. Ora, música é identidade e nossa identidade passou a valer menos. Tenham isso em mente.

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Ilusão (Cracolândia), MC Hariel e vivência

Com batidas de Funk e música eletrônica, alinhadas a excelentes arranjos de instrumentos de cordas, “Ilusão (Cracolândia)” chegou na sexta-feira passada (13) ao público. O alto desempenho surpreendeu e emocionou milhões de ouvintes, enquanto seguem aplaudindo a iniciativa criada por Alok, MC Hariel, MC Davi, MC Ryan SP, Salvador da Rima e Djay W.

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Tomoko Kawase e os opostos não tão opostos assim

Em tempos de polarizações políticas, sociais e em várias outras esferas, tem sido relativamente comum ver pessoas tentando encaixar o mundo em uma lógica binária. 0 ou 1. Preto ou branco. Quente ou frio. Esquerda ou direita. Escolha seu lado e ele vai definir tudo que você é – e o que você não é. Mas será mesmo?

Opostos… ou complementares?

Se você me perguntar por que há quem queira reduzir tudo a extremos e oposições, eu sinceramente não saberei responder. Se a pergunta for o que eu acho que causa esse tipo de comportamento, meu palpite seria que isso torna mais simples formar sua visão de mundo e assim fazer suas escolhas. Afinal, se tudo pode ser reduzido à bem e mal, certo e errado; fica fácil decidir, não é mesmo?

A redução em si talvez não seja ruim, não sei dizer. Mas há dois problemas que vejo nela: o primeiro parece vir quando esse mesmo reducionismo é aplicado com uma mentalidade de confronto, onde não basta você escolher seu lado, é preciso atacar tudo que venha do outro lado. Temos visto muito isso na política (lembrando que política não se resume aos políticos em si, mas também à formação de grupos sociais e à forma como eles interagem uns com os outros), mas esse ponto é bastante polêmico e complexo, então não pretendo discutir aqui.

O segundo problema, talvez bem menos sério, porém mais próximo do que pretendo abordar aqui, é a limitação que esse tipo de visão coloca, onde tudo e todos estão dentro de caixinhas cujos conteúdos não se misturam. Ou você é bom, ou é mau; ou é alguém que só valoriza o corpo, ou só valoriza a mente; ou é uma pessoa meiga, ou é abusada (mas não as duas coisas ao mesmo tempo, OK, Anitta?). É uma lógica comum em obras como filmes adolescentes (onde os atletas descolados e pouco inteligentes batem de frente com os nerds antissociais, ou as líderes de torcida lindas e fúteis trocam alfinetadas com as garotas tímidas e desleixadas), telenovelas (que até hoje giram em torno dos conflitos entre heróis sempre bondosos e vilões sempre malignos), e por aí vai.

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Pink Fantasy e a torcida pelos underdogs

Saudações! Antes de começar o texto de hoje, já aviso que qualquer semelhança com a análise do Aquário Hipster para o debut das maravilhosas Pocket Girls não é mera coincidência: depois de lê-la, fiquei pensando em todos os grupos nugus que eu gosto de ouvir (#stanLOONA) e constatei que talvez eu escute mais esses grupos do que os consolidados. Por achar as músicas deles melhores? Sim, mas também pelo apelo deles enquanto underdogs.

Bom, como o título já entrega, o grupo escolhido pra esse artigo não é o das rainhas do loonaverso, mas outro que eu venho panfletando descaradamente nos comentários pela blogosfera: pode entrar, Pink Fantasy!

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Womxnly, Jolin Tsai e Yeh Yung-chih

Dia desses sonhei com uma flor, não sabia que tipo, mas, em seguida, ela tomou forma de uma pessoa; tinha olhos opacos, de porcelana. Apesar de não saber identificar quem era, a forma de luz rosada veio ao meu encontro e me abraçou – o abraço me embalou num gesto de carinho e conforto. Partiu assim que os primeiros raios de sol tocaram meu rosto. E assim, como quem pensa em música todo o tempo, lembrei-me de “Womxnly”, canção da artista taiwanesa Jolin Tsai.

A história por trás da letra se trata duma homenagem dobrada dentro dum lembrete. “Na manhã de 20 de abril de 2000, Yeh Yung-chih (葉永 鋕) pediu a seu professor para ir ao banheiro antes do término da aula. Alguns minutos depois, seu corpo sem vida fora encontrado no chão do banheiro em uma poça de sangue. Ele tinha apenas 15 anos.”

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Burn It, Agust D e simbologias

“Eu vejo as cinzas caindo da sua janela
Há alguém no espelho que você não conhece
E tudo estava errado
Então queime até que tudo desapareça.”

O psiquiatra suíço Carl Jung via o Ouroboros como um arquétipo e a mandala básica da alquimia. Jung também definiu a relação do Ouroboros com a alquimia. Os alquimistas, que, à sua maneira, sabiam mais sobre a natureza do processo de individuação do que os modernos, expressaram esse paradoxo através do símbolo de Ouroboros, a cobra que come o próprio rabo. Diz-se que o Ouroboros tem um significado de infinito ou totalidade. Na imagem milenar do Ouroboros reside o pensamento de devorar-se e transformar-se em um processo circulatório, pois ficou claro para os alquimistas mais astutos que a matéria prima da arte era o próprio homem.

O Ouroboros é um símbolo dramático para a integração e assimilação do oposto, ou seja, da sombra. Esse processo de efeito retroativo é ao mesmo tempo um símbolo de imortalidade, uma vez que é dito do Ouroboros que ele se mata e se dá vida, se fertiliza e dá à luz a si mesmo. Ele simboliza Aquele que procede do choque de opostos e, portanto, constitui o segredo da matéria prima que inquestionavelmente deriva do inconsciente do homem.

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Lit, Lay

Lay, membro do grupo EXO, retornou com a primeira parte de seu quarto álbum de estúdio, intitulado “莲 (LIT) Part.1” e música de trabalho homônima. Honestamente eu não estou muito “no clima” para escrever coisa alguma, já que todo dia agora virou tragédia. Espero que o psicológico de vocês não seja tragado pelas notícias sobre a pandemia e tensões políticas, de verdade. Minha cabeça está uma bagunça.

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“STFU!”, Rina Sawayama e as projeções que fazemos uns sobre os outros

Olá, pessoal, aqui é o Brave Sound Drop It (HEY!) emprestando o espaço deste blog novamente. Hoje, para trazer um texto que admito que talvez fique um tanto confuso e talvez diga muita coisa errada; fica a critério de vocês definirem isso.

Antes do tema do texto, uma introdução: desde que conheci esta blogosfera, já perdi a conta do número de cantores, grupos e bandas que descobri e passei a amar por meio de indicações da Carla (aqui do Whatever Music Basement), do Lunei (do atual Miojo Pop), do Dougie (do atual PopAsiático.jpg), do Wendell (do O Gosto Meu), do Guilherme (do Palpites Alheios), de Sowon Xiita (do Asia on Fire) e de blogueiros que desapareceram, como o Bruno do eterno Asian Mixtape e a Tássia do E Aí Surgiu o K-Pop (que talvez tenha sumido com medo dos meus setenta e poucos comentários num mesmo artigo dela… foi mal, Tássia, a obsessão em comentar o loonaverso é mais forte do que eu).

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